O pseudo-pleonasmo que associa traficar drogas à violência urbana é coisa nossa, da América do Sul, praga maldita oriunda da Colômbia, no fim dos anos 70. Pelo menos lá eles tinham motivação política, coisa que só nos dias de hoje pode-se admitir do lado de cá. O crime aqui, agora, é engajado, tem aspirações político-econômicas, além da desculpa social. Modernizou-se. Nos Estados Unidos e na Europa, os traficantes não ostentam poder nem dinheiro. Até porque não estão com essa bola toda. Evidentemente que têm seus lucros, suas lavanderias e seus esquemas. Vivem disso. Mas não desfilam com fuzis ou granadas nem bloqueiam avenidas. Não incendeiam ônibus nem atacam delegacias. Os traficantes de lá também não controlam o transporte comunitário. É claro. Os traficantes daqui precisam fugir da polícia e encarar a milícia, o novo pesadelo das autoridades. Talvez por isso, ao enfrentar duas forças de segurança (uma do bem, a outra do mal) , justifique o armamento de guerra adquirido nesses últimos tempos. Mas não as mortes. A morte não se justifica. E eles matam mesmo.
A palavra milícia era ligada às FARC, há dez, quinze anos - pelo menos. Hoje, associamos a Jerominho, Liga da Justiça, Natalino. O Comando Vermelho era Escadinha, Rogério Lemgruber, Professor, Zé do Bigode. Hoje é Beira-Mar, Elias Maluco. Esses últimos, dois infelizes, dois criminosos cruéis, atacadistas e que a sociedade insiste em deixar morrer neles a responsabilidade e autoria da atividade de traficar entorpecentes. As drogas vêm de fora. De fora. São policiais corrompidos, políticos corrompidos, motoristas corrompidos, desempregados corrompidos (mulas), sociedade corrompida. O traficante, não. Ele não se corrompe mais, porque é assumidamente um bandido. É um criminoso que percebeu no tráfico de drogas a fonte de ganhar dinheiro. Como via antes em assaltar bancos e residências. Como outros entendem que fraudar a Previdência é mais lucrativo. Tenho certeza que , se o traficante pudesse, roubaria milhões dos cofres públicos, utilizando apenas um telefone celular, uma conta bancária acessada pela internet e a canalhice digna de poucos. Mas o traficante do morro, sem estudo, não pode. Ele tem que ser realista, entender que é miserável, que a sua fome não se mata com comida. Ele quer se auto-punir e nos leva junto. Ora, para quê ele iria viver armado, fugindo da polícia, vendendo o que é proibido, descontando a raiva e a revolta da infância contra si? Porque ele foi corrompido antes de todos. E essa revolta, esse ódio acaba m respingando na sociedade, os jornais nos informam. Mas nunca saberemos a dor que não sai nos jornais.
O status almejado pelo traficante é uma auto-suficiência, uma prova para si mesmo que ele pode vencer na vida, não importa o método. Ele não quer aceitar a miséria que o acompanhou durante toda a vida. É na adolescência que ele se vende, que ele se rende. Na idade frágil. São seduzidos pelo poder, pelo dinheiro. São programados para odiar o outro, o inimigo, o alemão, o playboy, o coroa, o bacana, a piranha. Por isso eles morrem cedo. E não importa se tem bala perdida que mata trabalhador, que faça chacina de inimigos, que se mate policiais, jornalistas. É ele contra ele e a gente paga o preço. Sem dúvida, consumir drogas financia o tráfico. Os usuários devem refletir sobre isso. Os que não usam drogas fazem o quê enquanto isso? Se não houvesse consumo, não haveria o comércio. Isso é verdade. Mas, e o traficante do morro, traz de onde? Como chegam as drogas aos morros? Com entra a droga no Rio, no Brasil? Digo isso independentemente de Pedro Juan Caballero ou Ponta Porã, que estamos cansados de saber que é uma das mais manjadas rotas do tráfico internacional. É agir. Essa é a questão. Mas não termina aí, não! As pessoas encerram a discussão no matuto. Ponto. O traficante é o consumidor do consumidor. Vocês querem que ele pare de consumir? E então?
Bruno Quintella é jornalista e filho do também jornalista Tim Lopes, morto por traficantes do Complexo do Alemão em junho de 2002 quando produzia reportagem pela TV Globo
Sobredrogas.
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