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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O dilema do porco-espinho, de Arthur Schopenhauer

O dilema do porco-espinho é uma metáfora criada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) para ilustrar o problema da convivência humana. Schopenhauer expôs esse conceito em forma de parábola na sua obra Parerga und Paralipomena, publicada em 1851, onde reuniu várias de suas polêmicas anotações filosóficas. O dilema do porco-espinho é apenas um parágrafo que surge no Volume II desta obra, no entanto, tornou-se um conto popular citado até mesmo por Sigmund Freud, o pai da psicanálise.
No livro Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia, de Rüdiger Safranski, o autor sugere que Schopenhauer inspirou-se em uma escalada ocorrida quando o filósofo tinha apenas 16 anos:
Finalmente, em 30 de julho de 1804 — quando a grande viagem já se aproxima de seu fim — chega a escalada da montanha Schneekopp [o Pico da Neve] na Silésia, então alemã, hoje na Polônia. A jornada leva dois dias. Arthur pernoitou com seu guia em uma cabana construída em um planalto intermediário, no sopé do cume mais alto da montanha. “Entramos em uma peça única cheia de pastores embriagados. […] Era insuportável; sua quentura animalesca […] produzia um calor candente”.  A “quentura animalesca” dos homens amontoados naquele espaço exíguo — foi daqui que Schopenhauer tirou sua metáfora posterior dos porcos-espinho que se empurravam uns contra os outros para se defenderem do frio e do medo.( SAFRANSKI, 211, pg. 99)

O dilema do porco-espinho

o dilema do porco-espinho
Tradução do editor
Um número de porcos-espinho ​​se amontoaram buscando calor em um dia frio de inverno; mas, quando começaram a se machucar com seus espinhos, foram obrigados a se afastarem. No entanto, o frio fazia com que voltassem a se reunir, porém, se afastavam novamente. Depois de várias tentativas, perceberam que poderiam manter certa distância uns dos outros sem se dispersarem.
Do mesmo modo, as necessidades sociais, a solidão e a monotonia impulsionam os “homens porcos-espinho” a se reunirem, apenas para se repelirem devido às inúmeras características espinhosas e desagradáveis de suas naturezas. A distância moderada que os homens finalmente descobrem é a condição necessária para que a convivência seja tolerada; é o código de cortesia e boas maneiras. Aqueles que transgridem esse código são duramente advertidos, como se diz na Inglaterra: keep your distance! Com esse arranjo, a necessidade mútua de calor é apenas parcialmente satisfeita, mas pelo menos não se machucam.
Um homem que possui algum calor em si mesmo prefere permanecer afastado, assim ele não precisa ferir outras pessoas e também não é ferido.

Hedgehog’s dilemma

Versão em inglês, fonte: Wikipédia
A number of porcupines huddled together for warmth on a cold day in winter; but, as they began to prick one another with their quills, they were obliged to disperse. However the cold drove them together again, when just the same thing happened. At last, after many turns of huddling and dispersing, they discovered that they would be best off by remaining at a little distance from one another. In the same way the need of society drives the human porcupines together, only to be mutually repelled by the many prickly and disagreeable qualities of their nature. The moderate distance which they at last discover to be the only tolerable condition of intercourse, is the code of politeness and fine manners; and those who transgress it are roughly told — in the English phrase — keep your distance. By this arrangement the mutual need of warmth is only very moderately satisfied; but then people do not get pricked. A man who has some heat in himself prefers to remain outside, where he will neither prick other people nor get pricked himself.

Die Stachelschweine

Versão em alemão, fonte: Projekt Gutemberg
Eine Gesellschaft Stachelschweine drängte sich en einem kalten Winterrage recht nah zusammen, um sich durch die gegenseitige Wärme vor dem Erfrieren zu schützen. Jedoch bald empfanden sie die gegenseitigen Stacheln, welches sie dann wieder von einander entfernte. Wann nun das Bedürfnis der Erwärmung sie wieder näher zusammenbrachte, wiederholte sich jenes zweite Übel, so da? sie zwischen beiden Leiden hin und her geworfen wurden, bis sie eine mäßige Entfernung voneinander herausgefunden hatten, in der sie es am besten aushalten konnten.
So treibt das Bedürfnis der Gesellschaft, aus der Leere und Monotonie des eigenen Innern entsprungen, die Menschen zueinander; aber ihre vielen widerwärtigen Eigenschaften und unerträglichen Fehler stoßen sie wieder voneinander ab. Die mittlere Entfernung, die sie endlich herausfinden, und bei welcher ein Beisammensein bestehen kann, ist die Höflichkeit und feine Sitte. Dem, der sich nicht in dieser Entfernung hält, ruft man in England zu: keep your distance! – Vermöge derselben wird zwar das Bedürfnis gegenseitiger Erwärmung nur unvollkommen befriedigt, dafür aber der Stich der Stacheln nicht empfunden.
Wer jedoch viel eigene, innere Wärme hat, bleibt lieber aus der Gesellschaft weg, um keine Beschwerde zu geben, noch zu empfangen.
dilema do porco-espinho é uma parábola amplamente divulgada na internet, contudo, a grande maioria está modificada e atribuída a Schopenhauer, fugindo do sentido proposto pelo filósofo. Por esse motivo disponibilizei neste post as versões em inglês e alemão, bem como vários links e referências bibliográficas.
Autor: Alfredo Carneiro
Editor do netmundi.org
Referências Bibliográficas
  1. SAFRANSKI, Rüdiger. Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia. São Paulo: Geração Editorial, 2011.
  2. SCHOPENHAUER, Arthur. Arte de escrever. Porto Alegre, L&PM: 2009
Fonte: Netmundi. 28.1.2019.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Como praticar o budismo para ter uma vida mais significativa

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Budismo: uma tradição espiritual diferente de qualquer outra, nem melhor, nem pior, mas diferente, ensinando menos sobre a importância de divindades e leis espirituais, e mais sobre um modo de vida que pode transformar nosso mundo interno e consequentemente o mundo ao nosso redor.
Essa tradição remonta ao que hoje é conhecido como Nepal e começou há 2600 anos.
Embora, hoje, existam várias escolas dentro do Budismo, há uma compreensão fundamental que todos os budistas compartilham.
Mas por que as pessoas praticam o budismo? Embora haja uma série de razões, um dos princípios fundamentais está em sua compreensão de que todas as criaturas sofrem o desgaste básico do nascimento, envelhecimento, doença e morte, portanto, devemos ir além deste desgaste natural, ir além de vida e morte.
Aqui está como você pode praticar o budismo:

Vivendo com os quatro grandes votos do Bodhisattva (Guerreiro espiritual)

1) Trabalhe para acabar com o sofrimento dos outros

Os ensinamentos do Buda sobre as “as quatro nobres verdades” dizem respeito a existência do sofrimento, a origem do sofrimento, que existe um caminho para se liberar desse sofrimento e o caminho propriamente dito que dá origem ao próximo ensinamento sobre o Nobre Caminho Óctuplo.

2) Siga o Nobre Caminho Óctuplo

O Nobre Caminho Óctuplo é o caminho para a iluminação, o estado desperto onde a realidade é vista tal como é.
Essas oito lições incluem:
  • Fala Correta, Modo de Vida Correto, Ação Correta (Os Cinco Preceitos)
  • Concentração Correta, Esforço Correto, Consciência Correta (Meditação)
  • Pensamento Correto, Compreensão Correta (Meditação, Atenção Plena e os Cinco Preceitos)

3) Cortando os laços do desejo e apego

Grande parte da nossa vida é ditada pelos nossos desejos e apegos. Podemos querer o carro mais recente, o carro mais caro, a maior casa, mas esse desejo excessivo pelos bens materiais nos levam ao sofrimento. Não há problema em ter ou querer objetos materiais, contanto que isso não vire uma fonte de sofrimento e não te domine.

4) Aprendizagem ao longo da vida

Nunca devemos acreditar que aprendemos o suficiente. A aprendizagem é um objetivo para toda a vida, e quanto mais aprendemos e colocamos esse conhecimento em prática, mais nos aproximamos da iluminação.
Especificamente, devemos aprender o Buda Dharma e sua relação com o sofrimento.

Vivendo com os cinco preceitos

Os Cinco Preceitos do Budismo devem ser vividos para retornarmos a nossa verdadeira natureza e atingirmos a iluminação, o objetivo de todos os praticantes budistas.
Estes são diferentes dos mandamentos do cristianismo; elas não são regras de Deus, mas práticas fundamentais para toda a vida, devemos viver para nos tornar as melhores versões de nós mesmos.
Seguindo esses preceitos, podemos alcançar a iluminação completa e ter uma vida mais significativa, capazes de beneficiar todos os seres.
Estes cinco preceitos são:
  • Não Matar: Este preceito se aplica a todas as criaturas vivas, incluindo animais e insetos. É por isso que você descobrirá que os budistas, geralmente, vivem estilos de vida vegetarianos ou veganos.
  • Não roubar: basicamente, não pegar o que não lhe foi dado.
  • Não causar sofrimento através da sexo: não abusar ou explorar os outros, sexualmente, mentalmente, fisicamente e emocionalmente.
  • Não mentir: A verdade é muito importante. Não minta, esconda informações importantes ou guarde segredos. Seja aberto e claro.
  • Não utilizar substâncias que confundam a mente: qualquer coisa que intoxique sua mente deve ser abandonada, pois inibe a atenção plena, um elemento crucial no budismo.

O Karma

Karma, que significa AÇÃO, é um elemento-chave do estilo de vida budista. É a crença de que tudo o que você faz, ou seja, todas as ações que você produz através do seu corpo, da sua fala e da sua mente, geram um Karma positivo ou negativo. Se você gerar Karma positivo através de suas ações, você terá condições favoráveis, se for negativo, terá condições desfavoráveis.
A diferença entre boas ações e más ações são as motivações que temos por trás dessas ações. Boas ações são motivadas pela bondade e pelo desejo de aliviar os outros do sofrimento. Ações negativas são motivadas por ódio, ganância, apego, inveja, orgulho, carência e consistem em atos que trazem sofrimento a nós mesmos e aos outros.

Meditação: o estilo de vida budista

Finalmente, para praticar o budismo, você deve praticar a atividade diária mais importante para aumentar sua atenção e abertura: a meditação.
A meditação permite que você se familiarize com a sua verdadeira natureza, com seu verdadeiro ser.
Mas a meditação é mais do que apenas sentar em uma sala silenciosa. Aqui está um guia rápido para você começar a meditar:
  • No início é importante encontrar um lugar silencioso: encontre uma área tranquila onde ninguém irá incomodá-lo. Remova-se de distrações, como seu telefone, computadores ou músicas.
  • Sente-se confortavelmente: a posição de pernas cruzadas é a mais comum associada à meditação, mas não é obrigatória. Sente-se de uma maneira que seja confortável, de forma que você possa praticar. Sente-se ereto e relaxe. Pode ser no chão ou em uma cadeira.
  • Concentre-se nos seus olhos: a maioria das pessoas preferem fechar os olhos para ajudá-las a relaxar, no entanto, fechar os olhos não é necessário. Se você deseja manter os olhos abertos, tente abaixar o olhar ou fixá-lo em um objeto à sua frente.
  • Esteja atento à sua respiração: concentre-se em cada inspiração e expiração. Concentre-se no ar que entra e sai seu corpo. Se você se distrair, volte a atenção para a sua respiração quantas vezes for necessário.
  • Não julgue os pensamentos: esteja consciente deste momento, mas sem julgamento tal como achar que algo é “bom” ou “ruim”, de que “está certo pensar nisso” ou “está errado”, não julgue nada e mantenha a atenção na sua respiração.
Por pelo menos 5 minutos por dia na primeira semana, você deve meditar na mesma posição e no mesmo lugar para gerar o hábito da prática de meditação.
Se você quiser aumentar o tempo, prolongue suas meditações acrescentando 1 minuto por prática durante uma semana, por exemplo, inicie a prática por uma semana meditando 5 minutos por dia, na semana seguinte, aumente para 6 minutos por dia durante 1 semana, na seguinte 7 minutos diários por uma semana e assim por diante.
Use um temporizador assim você não fica preocupada(o) com o tempo.
Aspiro que isso esclareça melhor um pouco sobre o Budismo.
Meus melhores votos, Jigme Wangchuck!

Sobre Budismo. Posted: 22 Aug 2018.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

4 formas de lidar com a ansiedade em tempos difíceis

Posted: 18 Aug 2018 06:42 AM PDT
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O mundo parece estar cada vez mais louco e se você quer entrar nessa onda de loucura, basta ligar a televisão ou acessar os meios de comunicação de massa. Isso já é motivo suficiente para você não sair da cama.
Se o mundo exterior está maluco, imagine como está o nosso mundo interno? Temos que lidar com nossa vida e todos os seus aspectos. O que devo fazer da minha vida? Como posso ir mais devagar? Quem sou eu? Como lido com as minhas emoções?
Você já deve ter ouvido a frase “Corra atrás dos seus sonhos”, né? Muitas pessoas nos dizem isso, mas quantos de nós realmente estão vivendo o seus sonhos? Muitos de nós navegamos nas redes sociais e acabamos morrendo de inveja das fotos da viagem de alguém que parecem realmente estar vivendo seus sonhos. Parece que as pessoas acharam a chave para viver os seus sonhos e apenas nós ainda não encontramos. Estamos no nosso entediante trabalho.
Parece que a “felicidade” é uma utopia que nos contaram ou uma frase de publicidade e mesmo que trabalhemos duro, parece que não seremos felizes, não há garantia nenhuma de que seremos realmente felizes. Algumas pessoas estudam muito ou trabalham em lugares que não gostam, já outras, ficam incrivelmente ricas e famosas, apenas para terminar com depressão e cometer suicídio.
Todas essas coisas nos deixam extremamente ansiosos em relação a vida, e nos leva a ansiedade social,  onde nos comparamos constantemente com os outros. Quando estamos cara a cara com alguém, olho no olho, ficamos desconfortáveis e, por insegurança, tentamos nos esconder atrás da tela do nosso celular.
Essa é a grande dificuldade do nosso tempo. Pode não parecer tão perigoso quanto as principais doenças que conhecemos como a AIDS, o câncer ou a depressão, mas a ansiedade drena a nossa energia e cria um constante sentimento de inquietação. É isso que faz com que queiramos nos distrair com a nova série da Netflix e com os posts do facebook/instagram, simplesmente porque nos é insuportável ficar a sós com nossos pensamentos. Precisamos de fones de ouvido e música constante para deixar a vida suportável.
Não tem que ser assim. Todos sabemos que deveríamos ser gratos pelo que temos na vida e que nunca deveríamos nos comparar aos outros. Mas o que realmente significa isso? Como podemos superar a ansiedade?
  1. Dê um passo para trás. Precisamos retroceder e analizar nossas vidas. Parece chato, mas simplesmente não podemos pular este passo. O que queremos fazer com nossas vidas? Não há um caminho certo para todos, mas houve pessoas no mesmo caminho antes de nós. Talvez queiramos ser uma estrela do rock, mas será que realmente seríamos felizes se os paparazzi nos perseguissem 24 horas por dia e sete dias por semana? Será que as estrelas do rock se tornam mais felizes com o passar dos anos? Quantas recorrem ao álcool e às drogas? Depois temos que pensar se estamos dispostos a investir o tempo e a energia que isso requer.
  2. Busque um exemplo. Se encontramos uma maneira de viver que torna a nossa vida mais feliz e significativa, o próximo passo é achar alguém que incorpore isso. Para ser um grande músico, temos que praticar. Para ser um jogador de futebol, temos que praticar. Até para caminhar, tivemos que praticar, mesmo se não nos lembramos disso agora. A mensagem aqui é que, sem uma causa, não há um resultado. Chegar a algum lugar na vida requer dedicação. Uma pessoa que incorpore aquilo que buscamos pode nos dar dicas e se tornar uma grande fonte de inspiração.
  3. Ajude alguém. É tão fácil deixar-se absorver pelos próprios pensamentos e desejos. Pensamos acima de tudo naquilo que queremos e precisamos para nossas vidas e, cada vez que alguém interfere nisso, damos um chilique. Uma grande parte da ansiedade é o sentimento de isolamento, mas a melhor forma de se conectar com os outros é de genuinamente se importar com eles. Se pensarmos apenas em nós mesmos, estamos fadados a nos sentir miseráveis; enquanto é provado cientificamente que ajudar os outros de coração alivia a ansiedade e aumenta a felicidade. Não precisa ser nada de grande. Um sorriso para alguém em um dia sombrio ou um agradecimento sincero pode ser suficiente para melhorar o astral de ambos os lados. Não façam isso com um sentimento de obrigação, mas com o genuíno desejo de melhorar o dia de alguém. Depois disso, vejam o que acontece com seu estado mental.
  4. Descubra-se. Todos gostamos de pensar que somos únicos, mas isso apenas prova que somos todos iguais. Quando dizemos “descubra quem você é” trata-se realmente de entender quem nós somos. Todos nós temos problemas, e uma vida perfeita simplesmente não existe. Não acreditem em tudo aquilo que vocês pensam! Da mesma forma que nunca mostraríamos fotos nas quais pensamos que não estamos com uma boa aparência, os outros também não o fazem. Temos medo de ser ridicularizados em público – e, adivinhem – todo mundo tem este medo. Embora vivamos em uma era na qual somos bombardeados por vidas aparentemente perfeitas, não deveríamos cair nesta armadilha. Se tivermos consciência desses pontos e tentarmos levar felicidade aos outros, do fundo de nosso coração, e trabalharmos para trazer significado para nossas vidas, a nossa ansiedade se dissolverá gradualmente.
Tente colocar em prática tudo o que foi abordado aqui, tenho certeza de que algum benefício você irá encontrar.
Se você sofre de ansiedade, recomendo essa TÉCNICA PRÁTICA E EFICAZ PARA ALIVIAR A ANSIEDADE EM 7 DIAS
Meus melhores votos, Jigme Wangchuck!

Fonte: http://sobrebudismo.com.br/

Descubra o que é o budismo

Posted: 17 Aug 2018 11:25 AM PDT

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Budismo é a religião fundada pelos discípulos de Siddharta Gautama, o Buddha, baseado nos ensinamentos filosóficos proferidos por este durante sua vida. A doutrina do Budismo foi sistematizada a partir dos Concílios budistas nos quais os discursos proferidos pelo Buda foram transcritos e sistematizados. A liturgia budista foi criada naturalmente a partir das escolas e tradições que se criaram ao longo dos anos.
A base da filosofia da religião budista está contida no Tripitaka (Três Cestos) – Sutra-pitaka (que contém os discursos de Buda); Vinaya-pitaka (que contém os preceitos que regem a vida dos monges e monjas); e Abhidharma-pitaka (que contém os comentários de vários eruditos budistas sobre a filosofia budista), e que são diferentes em diversas escolas.
Nos sutras estão contidos vários conceitos que dão sustentação à doutrina budista e as principais são:
Três Jóias: Buda, Dharma (Ensinamentos) e Sangha (Comunidade budista);
O Princípio da Co-produção Condicionada dos Fenômenos (Pratitya samutpada), que é o alicerce de todo o Budismo: as Quatro Nobres Verdades, apresentadas abaixo, são uma aplicação particular desse princípio geral.
– As Quatro Nobres Verdades:
1a. Nobre Verdade – Dukkha – A vida é desequilibrada, fora de prumo, desarmônica;
2a. Nobre Verdade – Samudaya – a causa deste desequilíbrio são os Três Venenos Mentais (a ira, a cobiça e a ignorância);
3a. Nobre Verdade – Nirodha – o equilíbrio pode ser restaurado;
4a. Nobre Verdade – Margha – o equilíbrio da vida pode ser atingido seguindo-se o Caminho do Meio (ou Caminho Óctuplo). A seguir:
  1. Caminho do Meio
  2. Visão Correta
  3. Pensamento Correto
  4. Fala Correta
  5. Ação Correta
  6. Meio de Vida Correto
  7. Esforço Correto
  8. Atenção Correta e Meditação Correta
Então, esses são basicamente os ensinamentos que estruturam a filosofia budista.
Referência: Texto extraído do site do Concílio Budista Brasileiro.
Autorização: A publicação deste texto foi autorizado pelo presidente do CBB, Rev. Maurício Hondaku.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Filosofia africana: a luta pela razão e uma cosmovisão para proteger todas as formas de vida

Jean Bosco Kakozi é professor da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), em Foz do Iguaçu. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Marco Weissheimer
 Em suas Lições sobre a Filosofia da História, Hegel diz que a África não tem interesse histórico próprio e é um local em que os homens “vivem na barbárie e na selvageria, sem se ministrar nenhum ingrediente da civilização”. A África, para Hegel, não é um lugar habitado pela História nem pela Razão (“os africanos são crianças eternas, envoltos na negrura da noite sem a luz da história consciente”, diz ainda). Tratada hoje como um preconceito datado e anacrônico, a visão hegeliana sobre a relação do continente africano com a razão permanece viva na prática filosófica do presente, avalia o professor de Filosofia Jean Bosco Kakozi, natural da República do Congo, que esteve em Porto Alegre nesta última semana para fazer uma conferência na 6a Semana da África na UFRGS.
Doutor em Filosofia e Ciências Humanas, Kakozi tem pós-doutorado em Direito (na área de direitos humanos) pela Unisinos e atualmente é professor da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), em Foz do Iguaçu. Além disso, é um pesquisador da filosofia africana (Ubuntu) e latino-americana, da escravidão africana, movimentos sociais afrodescendentes, racismo e exclusão social, e relações inter-étnicas entre indígenas e afrodescendentes da América Latina e Caribe. O tema de sua conferencia na UFRGS foi “Ubuntu e Ukama: uma cosmovisão africana de inclusão e interdependência vital”.
Em entrevista ao Sul21, Jean Bosco Kakozi falou sobre os conceitos de Ubuntu e Ukama, fundadores de uma filosofia africana que, ao contrário do antropocentrismo que marca a tradição ocidental, caminha na direção de uma cosmovisão biocêntrica, que está sempre voltada para fortalecer, cuidar, gerar e transmitir a vida, respeitando todos os seres vivos, humanos e não humanos e tratando os ancestrais como elo de ligação entre os vivos, os mortos e os que ainda não nasceram. Lembrando a passagem de Hegel, ele fala por que o problema da Filosofia na África é o problema da luta pela razão, uma luta que se aplica também aos povos indígenas e outros povos excluídos pela civilização ocidental moderna na África, na América Latina e na Ásia.
“A filosofia ocidental excluiu muitos povos do mundo do uso desse atributo eminentemente humano que é a razão”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Sul21O que é a filosofia africana hoje e qual sua relação com a tradição da filosofia ocidental?
Jean Bosco Kakozi: O filósofo sul-africano Mogobe Ramose publicou, em 1999, um pequeno livro para falar sobre a filosofia africana a partir da noção de ubuntu. Em um dos capítulos desse livro, ele diz que o problema da Filosofia na África é o problema da luta pela razão. Por que ele fala de luta pela razão? A filosofia ocidental excluiu muitos povos do mundo do uso desse atributo eminentemente humano que é a razão. Foram excluídos povos indígenas, africanos e asiáticos. Hegel, na Fenomenologia do Espírito ou nas Lições sobre a Filosofia da História, diz que a África é uma região que não é de muito interesse para a humanidade pois é uma região que está fora da História. A luz da razão ou o espírito da História, como ele diz, nasceu no Oriente, na Ásia, e foi caminhando para o Oeste, na direção da Europa, sem passar pela África. O Egito, para ele, não teria nada a ver com a África, sendo uma espécie de preâmbulo da Europa. A História, diz ainda Hegel, é racional. São seres racionais que fazem a História. Então, aqueles que não usam a razão não estão na História.
Mogobe Ramose diz que a Filosofia na África tem uma tarefa e uma responsabilidade muito importante que é lutar pela razão. A Filosofia, assinala, deve começar também por esse problema, dizendo que a razão está presente na África e que as pessoas usam a razão. Todo o ser humano usa a razão. Ramose fala desse desafio e de sua relação com o ubuntu.
Sul21: O que é o ubuntu, exatamente? É uma corrente de pensamento, um conceito?
Jean Bosco Kakozi: É mais do que isso. Para Ramose e outros filósofos e pensadores africanos, ele é a base da filosofia africana, compreendendo uma ontologia, uma ética e uma epistemologia. Desmond Tutu, outro pensador africano, que hoje é arcebispo emérito, diz que o ubuntu é a cosmovisão africana, algo mais abrangente que a filosofia, envolvendo também elementos de antropologia, sociologia, política e economia. É uma forma de enxergar o mundo, algo equivalente ao weltanschauung alemão. Nós vemos o mundo hoje a partir de uma cosmovisão ocidental. Essa é uma forma de conhecer, pensar e enxergar o mundo. A ela está associada uma maneira de fazer as coisas. Se mudarmos essa cosmovisão, essa maneira de pensar, sentir e conhecer o mundo, a maneira de trabalhar, de pesquisar e de conhecer também mudará.
O ubuntu está baseado na ideia de humanidade. É um termo que se encontra em várias línguas banto. Trata-se de duas palavras em uma, a saber: “ubu” e “ntu”. A primeira está associada a uma ontologia, aos fundamentos da realidade, e a segunda a uma epistemologia, à possibilidade de conhecer tudo o que existe. Em uma primeira acepção, portanto, o ubuntu é uma ontologia e uma epistemologia, expressando o conjunto da realidade e de como podemos conhecê-la. Mas ele também significa a pessoa tomada em abstrato. A palavra “bantu” significa pessoa, mas quando queremos falar da pessoa de modo abstrato, usamos “ubuntu”, que nos leva a pensar a noção de humanidade, como conjunto das pessoas. Então, a primeira acepção de ubuntu é o conjunto da realidade, de tudo o que existe e que pode ser conhecido, enquanto a segunda é o conjunto das pessoas, a humanidade. E os humanos vivem sempre relacionados com outras entidades cósmicas não humanas.
Nós temos essa acepção também nas línguas europeias e greco-latinas. Nestas línguas também se fala da humanidade como um valor e não só como o conjunto dos humanos. Nós falamos que fulano é humano, tem humanidade. Isso quer dizer que fulano, Francisco ou Pedro, é uma pessoa que tem valores, é compassivo, empático e solidário com as pessoas, com o próximo.
Sul21Qual é a origem temporal dessa cosmovisão africana? É possível datá-la no tempo?
“A maioria dos egípcios antigos era composta por negros. O eurocentrismo sempre quer branquear o Egito”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
 Jean Bosco Kakozi: Essa é uma pergunta interessante. O ubuntu como um fenômeno político e acadêmico é recente, mas como uma vivência das comunidades africanas ela existe desde sempre. Eu tenho interesse em pesquisar isso. Essa linha de tempo chega até os egípcios. Agora, há uma corrente de pesquisa que está estudando a influência dos egípcios antigos na África negra. A hipótese que está sendo pesquisada é que as línguas e culturas da África subsaariana têm a ver com o Egito antigo. A maioria dos egípcios antigos era composta por negros. O eurocentrismo sempre quer branquear o Egito. Isso é uma mentira. Eu acredito que é possível rastrear alguns elementos de vivência do ubuntu até o Egito antigo. Se partirmos da hipótese de que as culturas e línguas africanas subsaarianas estão relacionadas ao Egito antigo, não seria uma loucura fazer estabelecer essa relação.
Sul21: E, enquanto fenômeno político, está ligado à luta anticolonialista na África?
Jean Bosco Kakozi: Sim. Em 1948, o National Party, partido da extrema-direita branca racista, ganhou a eleição na África do Sul. Quando esse partido chega ao poder, começa a decretar leis segregacionistas. Já havia essa segregação antes, desde a chegada dos primeiros colonizadores holandeses no século XVII e depois com os ingleses, no século XIX. Mas, em 1948, a segregação partiu do próprio Estado nas mais diferentes áreas: educação, moradia, transportes e assim por diante. Aí começaram também as respostas dos africanos contra essas leis. O ápice dos protestos contra as leis segregacionistas ocorre nos anos 70, quando ocorre o massacre de Soweto. Neste massacre, a polícia matou estudantes que estavam se manifestando contra uma lei que obrigava os africanos a fazer toda a educação, desde o ensino fundamental, na língua africâner.
No Zimbabwe, país vizinho da África do Sul, também ocorreram neste período vários movimentos de protesto que também recorreram a elementos do ubuntu para lutar contra a desumanização da colonização. Assim, pouco a pouco, o ubuntu vai sendo levado para a área política. O ápice desse processo ocorre nos anos 90, sobretudo em 1993, quando Mandela é libertado do presídio onde ficou 27 anos. Neste período, a palavra “ubuntu” entra pela primeira vez na história política da África do Sul em um texto muito relevante, que é a Constituição de transição que levará o país para as eleições em 1994. Ela entra no epílogo dessa Constituição de transição, onde se diz que, para lidar contra as mazelas da discriminação e da segregação, não havia lugar para vingança ou retaliação, mas sim para “ubuntu”, que devia prevalecer. No entanto, na Constituição de 1996, essa palavra desaparece.
A presença dessa palavra na Constituição de transição abre espaço para o seu uso na área política. Hoje ela é muito usada também na área acadêmica, na filosofia moral, ética, bioética, política, sociologia, biologia e física. É importante assinalar ainda que o ubuntu também foi levado para a Comissão da Verdade e Reconciliação, criada logo após Mandela assumir o governo. Ele defendeu que, para pensar uma África do Sul pós-apartheid, o novo governo deveria criar essa comissão. Desmond Tutu, que presidiu a comissão, escreveu um livro intitulado “No future without forgiveness” (Não há futuro sem perdão), onde ele mostra como o ubuntu ajudou no processo de reconciliação e de reparação nesta justiça transitória.
Sul21Como foi esse processo?
“Na África do Sul não foi feita uma justiça vingativa dos vencedores”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Jean Bosco Kakozi: Na África do Sul não foi feita uma justiça vingativa dos vencedores, porque não houve vencedor. Não foi feito algo como o Tribunal de Nurenberg, após o fim da Segunda Guerra, onde Estados Unidos, Inglaterra, França e seus aliados puniram os alemães. Eles castigaram os alemães e foram embora. Desmond Tutu falava: nós vamos castigá-los e ir embora pra onde? As vítimas e agressores terão que seguir convivendo no mesmo país. Por isso, defendeu, precisamos fazer uma justiça humanizante, uma justiça que humanize tanto as vítimas quanto os perpetradores de crimes. Ele falava aí, desde a perspectiva do ubuntu. A ideia é que, só alguém que se desumanizou, poderia cometer crimes e atrocidades como as que ocorreram no apartheid segregacionista. Somos uma nação de feridos, disse ele.
Houve uma anistia condicionada. Desmond Tutu falava de uma terceira via, com perdão, mas sem esquecimento. O perpetrador tinha que confessar seus crimes, pedir perdão para a comunidade e para a vítima. Era um momento de catarse nacional, que era transmitido ao vivo pela televisão pública. Algumas vítimas não queriam reparação e só pediam uma sepultura digna para a pessoa que tinham perdido. Só queriam saber onde tinha sido enterrada e que ganhasse uma sepultura digna. A ideia era ter uma reparação, mas também uma reconciliação. Muitos criticaram esse processo que não foi perfeito e teve problemas, é verdade. Há vítimas que seguem esperando a reparação material até hoje. Na Comissão também se falou que aqueles que haviam se apropriado de terras de nativos iriam devolver essas terras e haveria um processo de reforma agrária. Isso também ficou com uma tarefa pendente por parte do Estado sulafricano. A maioria das terras férteis seguiu nas mãos dos fazendeiros brancos.
Sul21: Quais seriam as principais diferenças entre essa cosmovisão africana e a cosmovisão ocidental? Qual o tamanho e a natureza dessas diferenças?
Jean Bosco Kakozi: Creio que há uma grande diferença na perspectiva de como tratar o outro, na visão de alteridade. A filosofia ocidental moderna está baseada na ideia do cogito, de Descartes. Eu penso, logo existo. O ego pensante é condição de possibilidade da existência de uma pessoa. Essa ideia do “eu” é chave na filosofia moderna ocidental. Toda a cultura ocidental pode ser entendida a partir dessa visão. A cosmovisão africana é diferente. Ela diz: eu sou porque pertenço (a uma comunidade). Desmond Tutu diz: eu sou porque somos. Há uma forte relação entre o nós e o eu. Há alguns pensadores mais categóricos que afirmam que, na cosmovisão africana, é o nós que prevalece. Isso não implica excluir o eu. Há algumas criticas que afirmam que essa visão representaria uma tirania da comunidade sobre o indivíduo, um coletivismo comunismo. Mas não é assim.
O “eu” encontra seus interesses dentro do “nós”. O “nós” significa vida em comunidade com a presença de vários “eu”. A vontade de uma só pessoa, porém, não deve prevalecer, mas sim a vontade da comunidade. Essa valorização da comunidade não aparece somente na África. Há um filósofo canadense, Charles Taylor, que também trabalha a questão do comunitarismo, de uma perspectiva ocidental. Os alemães também valorizam muito essa ideia de comunidade. O pensador senegalês Léopold Sédar Senghor disse que, embora a cultura ocidental considere o comunitarismo, o indivíduo acaba prevalecendo em relação ao “nós”. Na África, mesmo existindo também a ideia de indivíduo, o “nós” acaba prevalecendo. Aliás, nesta visão, o indivíduo que não cabe dentro de um “nós” representa a morte social. Se você não se considera pertencente a alguma comunidade, você não existe. A pobreza extrema não é ter dinheiro ou riquezas, mas sim não pertencer a nenhuma comunidade.
“Os filósofos profissionais das nossas academias são muito eurocêntricos”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Sul21Na tua experiência como professor de Filosofia, como é o contato com seus colegas que pesquisam e trabalham com a filosofia ocidental? Há um espaço de abertura e possibilidade de diálogo com a cosmovisão africana do ubuntu com a qual você trabalha?
Jean Bosco Kakozi: Na minha experiência, infelizmente ainda existe uma distância. Eu estudei em uma das universidades importantes da América Latina, a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), chamada de a máxima casa dos estudos. Mesmo sendo uma universidade importante, uma das melhores da América Latina, na Faculdade de Filosofia eles quase não trabalham com esses temas relacionados a outras cosmovisões. Eles acabam sendo trabalhados nas pós-graduações dos Estudos Latino-americanos ou, às vezes, na Antropologia. Os filósofos profissionais das nossas academias são muito eurocêntricos.
No México, existe um Instituto de Pesquisas Filosóficas, onde quase todo mundo segue a tradição da filosofia analítica, uma linha muito rígida que, de certo modo, quer fazer da filosofia quase uma ciência exata. Os pesquisadores desse instituto não trabalham com questões que são impostergáveis para a América Latina, como tratar de enxergar e pensar essa realidade a partir das cosmovisões que foram excluídas e marginalizadas. Mesmo assim, elas seguem existindo. O México possui uma comunidade muito rica de povos indígenas. Se os nossos filósofos enxergassem e conhecessem essas cosmovisões poderiam realizar pesquisas maravilhosas. Mas preferem seguir publicando sobre Hegel, Heidegger, Habermas, Deleuze e assim por diante. As cosmovisões africanas, caribenhas e indígenas, subalternizadas, não tem vez.
Sul21Aquela formulação de Hegel sobre onde a razão está presente e onde não está parece seguir bastante vida dentro da Filosofia…
Jean Bosco Kakozi: Sim, infelizmente. Se você apresentar um projeto de pesquisa sobre Kant, Heidegger, Habermas ou Rawls será muito bem recebido. Mas se você apresentar um projeto sobre um problema como a identidade da filosofia política na América Latina ou o problema da libertação da América Latina como um problema filosófico ouvirá que eles não são temas para a Filosofia e será encaminhado para a disciplina de Estudos Latino-americanos.
Sul21Você veio a Porto Alegre para fazer uma conferencia na 6a Semana da África na UFRGS sobre “Ubuntu e Ukama: uma cosmovisão africana de inclusão e interdependência vital”. Até aqui, você falou sobre o Ubuntu. O que é Ukama e como se relaciona com o Ubuntu?
“Temos uma cosmovisão biocêntrica, que está sempre voltada para fortalecer, cuidar, gerar e transmitir a vida”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
 Jean Bosco Kakozi: Ukama, um termo da língua xona (grupo de línguas africanas faladas nas províncias de Manica, Tete e Sofala de Moçambique, na metade norte do Zimbabwe e no leste da Zâmbia), é um conceito que vem do verbo “kama” que, em português, significa ordenhar, tirar o leite de uma vaca ou de uma cabra. Desse verbo saiu um substantivo que é “rama” e que significa uma pessoa que eu considero muito próxima. A ideia é que essa pessoa se alimentou do mesmo leite materno que eu. Há um vínculo afetivo muito forte aí. “Ukama” é a abstração de “kama” ou “rama” , expressando uma relação de irmandade, uma relação afetiva forte.
Ukama está conectado com Ubuntu, com a ideia de humanidade e de relação com os outros seres. Ukama traz para Ubuntu essa afetividade que é elevada também a outro patamar, que é a afetividade com a natureza. O “rama” nos liga com nossos ancestrais, que são muito importantes na cosmovisão africana. Nas religiões africanas, os ancestrais são uma figura central. Eles são a ligação entre os vivos, os mortos e os ainda não nascidos, sendo representados por totens não humanos. Pode ser um pássaro, uma árvore, são elementos da natureza. Nós também os consideramos como “rama”, como nossos irmãos que beberam o mesmo leite materno que nós.
Temos aí uma relação intrínseca entre Ubuntu e Ukama, que tem a ver com o que chamo de uma cosmovisão biocêntrica, que está sempre voltada para fortalecer, cuidar, gerar e transmitir a vida. O papel dos ancestrais é trabalhar com os vivos, ajudando-os a seguir vivos e estes, por sua vez, seguem lembrando deles e os celebrando, numa relação de solidariedade afetiva e anamnésica. Eles já se foram mas sempre são lembrados, o que implica uma prática permanente da memória. Nós trazemos a memória deles com a gente e essa memória é uma responsabilidade. Herdamos a vida deles, a terra, a língua, as tradições, a cultura, tudo. É uma memória afetiva que tem uma tarefa: nos tornar sólidos, fazer todo o possível para a nossa etnia, o nosso grupo, não desaparecer.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Piada do Dia: Joãozinho, o Filósofo


Um professor de filosofia parou na frente da classe e, sem dizer uma palavra, pegou um vidro de maionese vazio e o encheu com pedras de uns 2 centímetros de diâmetro. Olhou para os alunos, e perguntou se o vidro estava cheio.
Todos disseram que sim.
Ele então pegou uma caixa com pedregulhos bem pequenos, jogou-os dentro do vidro agitando-o levemente, e os pedregulhos rolaram para os espaços entre as pedras. E aí tornou a perguntar se o vidro estava cheio.
Os alunos concordaram: agora sim estava cheio!
Dessa vez, pegou uma caixa com areia e despejou dentro do vidro, preenchendo o restante. Olhando calmamente para as crianças, o professor disse:
— Quero que entendam que isto simboliza a vida de cada um de vocês. As pedras maiores são as coisas mais valiosas e importantes: família, amigos, saúde, filhos, coisas que preenchem a vida. Os pedregulhos são outras coisas importantes: o emprego, a casa e um carro. Já a areia representa o resto, coisas pequenas, como os problemas que precisamos enfrentar. Experimentem colocar a areia primeiro no vidro, e verão que não caberão as pedras e os pedregulhos. O mesmo vale para suas vidas. Priorizem cuidar das pedras, do que realmente importa. Estabeleçam suas prioridades. O resto é só areia!
Após ouvirem a mensagem tão profunda, o Joãozinho perguntou ao professor se poderia pegar o vidro, que todos acreditavam estar cheio, e fez novamente a pergunta:
— Vocês concordam que o vidro está realmente cheio?
Todos responderam que sim, inclusive o professor. Então, ele pega uma lata de cerveja, abre e despeja o conteúdo todo dentro do vidro. A areia ficou toda ensopada, pois a cerveja foi preenchendo todos os espaços restantes, e fazendo com que desta vez o vidro ficasse realmente cheio.
Todos ficaram surpresos e pensativos com a atitude do aluno, incluindo o professor. Então o Joãozinho explica:
— Não importa o quanto a sua vida esteja cheia de coisas e problemas, sempre sobra espaço para uma cervejinha!

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

“Uma nova classe de pessoas deve surgir até 2050: a dos inúteis”

Com o avanço da inteligência artificial, Yuval Noah Harari, autor de ‘Sapiens’, prevê que muitos profissionais não apenas ficarão desempregados, como também não serão mais empregáveis

Com o avanço da inteligência artificial, os humanos serão substituídos na maioria dos trabalhos que hoje existem. Novas profissões irão surgir, mas nem todos conseguirão se reinventar e se qualificar para essas funções. O que acontecerá com esses profissionais? Como eles serão ocupados? Yuval Noah Harari, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e autor do livro Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, pensa ter a resposta.
 Em artigo publicado no The Guardian, intitulado O Significado da Vida em um Mundo sem Trabalho, o escritor comenta sobre uma nova classe de pessoas que deve surgir até 2050: a dos inúteis. “São pessoas que não serão apenas desempregadas, mas que não serão empregáveis”, diz o historiador.
De acordo com Harari, esse grupo poderá acabar sendo alimentado por um sistema de renda básica universal. A grande questão então será como manter esses indivíduos satisfeitos e ocupados. “As pessoas devem se envolver em atividades com algum propósito. Caso contrário, irão enlouquecer. Afinal, o que a classe inútil irá fazer o dia todo?”.
Uma das possíveis soluções, apontadas pelo professor, são os games de realidade virtual em 3D. “Na verdade, essa é uma solução muito antiga. Por centenas de anos, bilhões de humanos encontraram significados em jogos de realidade virtual. No passado, chamávamos esses jogos de ‘religiões’”, afirma Harari. “Se você reza todo dia, ganha pontos. Se você se esquece de rezar, perde pontos. Se no fim da vida você ganhou pontos o suficiente, depois que morrer irá ao próximo nível do jogo (também conhecido como céu)”.
Mas a ideia de encontrar significado na vida com essa realidade alternativa não é exclusividade da religião, como explica o professor. “O consumismo também é um jogo de realidade virtual. Você ganha pontos por adquirir novos carros, comprar produtos de marcas caras e tirar férias fora do país. E, se você tem mais pontos que todos os outros, diz a si mesmo que ganhou o jogo”.
Para o escritor, um exemplo de como funcionará o mundo pós-trabalho pode ser observado na sociedade israelense. Alguns judeus ultraortodoxos não trabalham e passam a vida inteira estudando escrituras sagradas e realizando rituais religiosos. Esses homens e suas famílias são mantidos pelo trabalho de suas esposas e subsídios governamentais. “Apesar desses homens serem pobres e nunca trabalharem, pesquisa após pesquisa eles relatam níveis de satisfação mais altos que qualquer outro setor da sociedade israelense”, afirma Harari.
Segundo o professor, o significado da vida sempre foi uma história ficcional criada por humanos, e o fim do trabalho não irá necessariamente significar o fim do propósito. Ao longo da história, muitos grupos encontraram sentido na vida mesmo sem trabalhar. O que não será diferente no mundo pós-trabalho, seja graças à realidade virtual gerada em computadores ou por religiões e ideologias. “Você realmente quer viver em um mundo no qual bilhões de pessoas estão imersas em fantasias, perseguindo metas de faz de conta e obedecendo a leis imaginárias? Goste disso ou não, esse já é o mundo em que vivemos há centenas de anos”. [FONTE]

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

JORGE FORBES: A SOCIEDADE COLOCOU O MEDO COMO SEU GRANDE ORIENTADOR

Você tem medo do quê? De engordar? Do câncer? De ser traído? De amar? De reportagens e entrevistas que desafiam sua forma de pensar? A lista é infinita. Segundo Jorge Forbes, de um vício, transformamos o medo em virtude. Psicanalista, doutor em Teoria Psicanalítica e em Ciências, é membro da Escola Brasileira de Psicanálise e Escola Europeia de Psicanálise. Exclusivo para a Fausto, o idealizador do programa TERRADOIS da TV Cultura, também vencedor de um Jabuti, é o segundo convidado da série Tempos Líquidos. Agora, e você? Acha que chegaremos longe tendo medo de tudo? Confira!

Jorge Forbes.
Fausto – Você tem um programa na TV Cultura que se chama TERRADOIS. O que significa TERRADOIS?
Jorge Forbes: Terra Dois significa pós-modernidade. O programa aborda questões da pós-modernidade, porque estamos com dificuldade de viver nesse novo “planeta”, que é totalmente diferente, no seu modo de viver, do “planeta” anterior, o TERRAUM.

Quais são as principais diferenças?
Vivíamos numa sociedade vertical, agora vivemos numa sociedade horizontal. Antes, era uma sociedade disciplinar, agora a sociedade é de responsabilidade. Estávamos ligados a padrões universais, hoje temos múltiplas possibilidades. A sociedade, antes, era orientada pelo pai, hoje é multi orientada. Ou seja, o homem está em um novo momento: por um lado muito criativo, por outro muito angustiado.

Por que muito criativo?
Como todas as soluções que tínhamos foram postas em questão, as novas respostas terão de ser criativas.

E porque muito angustiado?
Porque não temos mais nenhuma garantia.

Dê um exemplo?
Quando temos dez possibilidades pela frente e escolhemos apenas uma, a única certeza que temos é que perdemos nove.


“Quando temos dez possibilidades pela frente e escolhemos apenas uma, a única certeza que temos é que perdemos nove.”


Jorge Forbes

Você tem medo de quê? foi um dos temas abordados no TERRADOIS. Qual viés explorou?
O medo deixou de ser vício para se tornar virtude. Quando eu era pequeno, meu pai dizia: “meu filho, quando você crescer, você não vai mais ter medo.” Ou seja, o medo era vício da infância. Hoje, as pessoas nos dizem que temos de ter medo de tudo: medo de sair na rua, medo da camada de ozônio – que, aliás, você não tem a menor ideia do que seja, mas morre de medo dela –, medo de andar com o vidro do carro aberto; medo do Sol, porque ele vai causar câncer; medo de usar açúcar e medo de não usar açúcar também. Medo do sexo, perigosíssimo! E por aí vai. A sociedade colocou o medo como seu grande orientador. Ou seja, e insisto, de vício se tornou virtude, nos agarramos na bainha da saia do medo, o que é muito ruim.

Por quê?
O medo é posição reacionária. Ele convida a voltar para a posição anterior. É re-ação, ação para trás. Uma pessoa com medo não cria. Para criar é preciso ousadia, entusiasmo. E o entusiasmo é um sentimento de confiança baseado no talvez, nos deuses do Olimpo. Não é no deus católico que está olhando por você, mas nos deuses que estão se lixando para você. In + theos, nos deuses.

Qual é o problema, afinal?
Estamos vivendo numa sociedade de medo por covardia de nos responsabilizar eticamente. Essa nova fase da história da humanidade é magnífica porque temos a chance única de reinventar a maneira do homem viver. Além do mais, o avanço tecnológico faz com que não tenhamos mais limite exterior. Dizíamos: “ah, se eu pudesse fazer tal coisa”. Hoje podemos! Resta saber se queremos mesmo.

No medo líquido, a contingência tem mais espaço?
Quando o medo está em aberto, como na pós-modernidade ou TERRADOIS, você fica muito prevenido. O ser humano teme mais as fantasias que cria do que algo objetivo. De um leão sei me defender, da minha sensação de perseguição, de fracasso, de vergonha, não. Há, inclusive, pessoas que preferem criar um agressor exterior para se desangustiar de seus medos subjetivos. Numa sociedade sem parâmetros, as pessoas ficam muito aflitas. E o que é a contingência? A qualquer momento pode acontecer uma coisa ruim porque não temos mais a sensação de que estamos dominando o entorno. Não é que antes dominávamos, mas como o entorno era padronizado, pensávamos que sim. Por isso eu disse sociedade disciplinar. A sociedade dizia como o pai tinha que ser, a mãe, a filha, o filho. Havia apenas a chance de ser adequado ou rebelde. Hoje não é mais questão de ser adequado ou rebelde, é de explicar quem você é. O que cabe só a você. E isso é muito difícil.


“A sociedade dizia como o pai tinha que ser, a mãe, a filha, o filho. Havia apenas a chance de ser adequado ou rebelde. Hoje não é mais questão de ser adequado ou rebelde, é de explicar quem você é.”


Jorge Forbes

É difícil perceber esse medo porque vivemos com aparatos tecnológicos demais e eles aparentemente significam segurança?
Os aparatos tecnológicos podem significar segurança no primeiro momento, mas no segundo já provocam uma insegurança desgraçada. Agora, você pode não só viver mais tempo, por causa deles, como dizer para alguém “estou morrendo de saudade de você” e ir encontrar essa pessoa. Estávamos acostumados a colocar o limite exterior a nós mesmos.

O celular me permite falar com mais rapidez com quem está distante de mim, mas ele também pode vir a ser uma desculpa para eu não enfrentar, por exemplo, o próprio amor. Em vez de eu marcar um encontro e ir ficar com a pessoa, fico apenas teclando com ela…
Não sei se é uma desculpa… O celular possibilita o gozo preliminar. Para as pessoas que gozam nas preliminares é um prato cheio. Espera-se que a pessoa vá um pouco além disso. Mas tudo aquilo que é um facilitador pode vir a ser um problema. Tudo. Não existe nada só legal ou só ruim. Agora, a ideia de que as pessoas se encontram menos por causa do virtual, non è vero.

Não é verdade?
Não é verdade. Essa ideia foi explorada no filme Ela. Só que essa ideia de poder se relacionar com a máquina porque a máquina é perfeita, e a mulher e o homem não são, é uma ideia falsa. O desejo funciona na imperfeição e não na perfeição. Na perfeição o desejo acaba.

O medo de uma catástrofe individual é maior do que de uma catástrofe coletiva?
A catástrofe coletiva é mais confortável, evidentemente. No coletivo, soma-se. É como quando uma criança diz para o pai: “Pai, bombei em física. Olha, mas a classe inteira bombou.” Existe o conforto da coletividade. Todo sofrimento é solidário e todo sucesso é solitário.

Frase da minha vida essa última!
[Dá risadas] É minha…

A fragilidade dos vínculos afetivos é uma faca de dois gumes? Por exemplo, hoje podemoscasar e separar com muita facilidade.
A pergunta seria se há transcendência na pós-modernidade. Para os gregos, um dia foi a natureza; depois, os deuses. No iluminismo foi a razão. Eu acho que sim, Luc Ferry acha que sim, Lipovetsky acha que sim. Todos nós achamos que é um novo tipo de amor, que não é o amor do contrato “em nome de”. Ou seja, não estou com você por causa do padre, do pai, da mãe, do filho, da herança, da educação. Estou com você porque quero estar, do contrário eu não estaria.

E isso gera medo?
Isso gera responsabilidade. Toda vez que há consequências subjetivas, algumas pessoas se assustam. A maioria, eu diria.

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