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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Condenado por assassinato nos EUA ensina a investir na bolsa da cadeia

(The San Quentin News)
Carroll Curtis ensina companheiros de prisão a investir no mercado de ações; dicas lhe renderam apelido de 'Wall Street'



Carroll Curtis tem 37 anos. Assassino confesso, ele está encarcerado na prisão de San Quentin, nos Estados Unidos.
Mas a fama de Curtis não tem a ver com o passado violento. Ele é um dos consultores financeiros independentes mais comentados da atualidade. E, dentro e fora da prisão, é conhecido por seu apelido: "Wall Street", em alusão ao coração do distrito financeiro de Nova York.
Atualmente, Curtis ensina seus companheiros de prisão a investir no mercado de ações.
"Eu não acreditava que todo mundo poderia ter acesso a esse tipo de dinheiro. Todos deveriam fazê-lo. E o melhor: é legal!", brada ele à sua plateia, que o observa com um misto de ceticismo e surpresa.
Mas de onde surgiu esse novo guru das finanças pessoais – batizado pelos outros presos como o "oráculo de San Quentin" – que dorme em uma cama de concreto?

Autodidata

Curtis passou a maior parte da juventude vagando pelas ruas de Oakland, dormindo em abrigos ou igrejas.
Seus pais eram viciados em crack, e ele passava os dias com o irmão sem qualquer perspectiva de futuro. Acabou por entrar em um grupo criminoso que roubava moedas de máquinas caça-níqueis em bares locais.
Em seguida, o destino bateu à sua porta. Juntamente com dois companheiros, Curtis tentou arrombar uma máquina e acabou desencadeando uma sucessão de acontecimentos que resultou em vários disparos e uma pessoa morta.
A polícia acusou Curtis de ser o atirador por trás do assalto malsucedido. Um júri o considerou culpado de homicídio aos 17 anos e o condenou à prisão perpétua por assassinato em primeiro grau e tentativa de roubo.

Aulas acontecem todas as quintas-feiras à noite na prisão de San Quintín
Até então, ele não sabia ler nem escrever.
Na prisão, Curtis teve um companheiro de cela que tinha por hábito ler o jornal oara ele. Um dia, foram parar, sem querer, na seção sobre a bolsa de valores e um dos detentos perguntou se eles sabiam investir no mercado de ações.
"Nunca tinha ouvido falar disso antes. Me diziam que era ali onde os brancos conseguiam dinheiro. Daí disse a mim mesmo: talvez tenha algo para mim aí", disse ele.
Curtis aprendeu a ler observando embalagens de doces e etiquetas de roupas. Em seguida, passou a se inteirar do que acontecia no mundo dos negócios.
Isso coincidiu com sua transferência para San Quentin, uma das prisões com programas educacionais mais consolidados do sistema penitenciário dos Estados Unidos, o que lhe abriu novos horizontes.
No começo, Curtis investia somas de dinheiro muito pequenas, centavos de dólar. Mas logo mergulhou de cabeça nas nuances da bolsa, a fim de desbravar o seu próprio caminho naquele labirinto que lhe parecia tão confuso e distante.
O primeiro conselho de Curtis é que 70% do que acontece no mercado de ações depende de psicologia.
Segundo ele, ao acompanhar o noticiário, pode-se identificar quem está em apuros, quem toma dinheiro emprestado, que presidente de empresa sobe ou desce, se é casado ou divorciado, ou quem obtém um contrato importante em algum país remoto.
Curtis diz que dessa forma é possível antecipar o que vai acontecer no futuro próximo. A ideia, diz ele, é encontrar boas oportunidades de investimento, porque o pânico se espalha pelos mercados por motivos estúpidos.
(The San Quentin News)
Curtis foi condenado à prisão perpétua por assassinato quando tinha apenas 17 anos
Ele diz que se, por exemplo, Bill Gates morre em um acidente de avião, muitas pessoas vão vender ações da Microsoft, embora o bilionário não esteja envolvido na gestão da gigante de tecnologia há anos.
Essa seria a oportunidade de fazer dinheiro, acrescenta ele, "comprando os papéis em baixa".
Foi essa linha filosófica que motivou Curtis a comprar, em dezembro de 2012, ações do Bank of American, da empresa de video games Zynga e do Facebook.
As três empresas tinham algo em comum: todas tiveram notícias negativas a seu respeito publicadas na imprensa. Segundo o site de informações financeiras MarketWatch, um ano e meio mais tarde, estas ações subiram 47%, 20% e 134%, respectivamente.
"Os investidores seguem os líderes. E eu sigo o caminho do dinheiro", disse Carroll em entrevista ao site Outsider Club.
Com esses critérios estabelecidos, Curtis apresenta sua metodologia, ou melhor, sua versão das estratégias existentes.
"Todos que já ganharam dinheiro no mundo conseguiram dominar quatro passos simples: economizar, controlar gastos, endividar-se prudentemente e diversificar os investimentos", afirmou ele à rádio pública americana NPR. Em outras palavras, o importante é:
  • Economizar para ter um imóvel próprio e um fundo de emergência;
  • Controlar gastos para não ter dívidas maiores a cada mês;
  • Endividar-se com prudência para que não peça emprestado o que não pode pagar;
  • Diversificar propriedades e ativos para não concentrar o risco.
Toda quinta-feira à noite, Curtis discorre sobre cada um desses conceitos com um grupo de voluntários da prisão. A finalidade é convencê-los a investir o pouco dinheiro que têm ou as economias de seus parentes.
"Sempre digo a meus companheiros de prisão que não estou ensinando um plano infalível. Estou apenas ensinando a planejar", explica.
Dessa forma, caso percam dinheiro, isso não é motivo para voltar às drogas ou ao crime, acrescenta Curtis.
Mas o analista financeiro Alex McAdams, da empresa americana de aconselhamento financeiro NerdWallet, aconselha prudência a investidores de primeira viagem e, sempre que possível, que procurem uma segunda opinião. Segundo ele, as sugestões de Curtis podem representar riscos, especialmente para quem não tem muitos recursos para investir.
Ao término de cada sessão, Curtis deixa um dever de casa para os detentos: perguntar a suas famílias quais são seus planos financeiros de longo prazo para que ele possa avaliar como ajudá-los.

Investimento solitário

(Getty)
Curtis diz se inspirar no megainvestidor Warren Buffett
Curtis não tem acesso à internet. Por isso, ele desenvolveu uma rotina de trabalho insólita: liga para a família para saber os preços das ações e só então diz o que eles devem comprar ou vender.
"Posso estar preso, mas estou no mesmo território que Warren Buffett como investidor. Posso escolher as empresas em que quero investir. É claro que não posso comprar a mesma quantidade de ações, mas tecnicamente somos a mesma coisa: investidores", lembra ele.
"Meu objetivo é, um dia, ter dinheiro para dar à minha comunidade. Quando li que Bill Gates ou Warren Buffett doam 90% do que ganham, pensei: 'não estou de certa forma ajudando a construir o que destruí?'."
Curtis pode ter sua sentença revista em 2043, ou mesmo antes, dependendo de sua conduta na prisão.


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Justiça Restaurativa: Marco Teórico, Experiências Brasileiras, Propostas e Direitos Humanos

Sugestões: Livros e Revistas

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  • ZEHR, Howard. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justiça. Tradução de Tônia Van Acker. São Paulo: Palas Athena, 2008.