terça-feira, 18 de agosto de 2009

Castigo infantil, um muro de silêncio

Um estudo recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela que maus tratos a crianças são uma realidade na América Latina, e que recorrer ao uso de castigo físico ou psicológico desmoralizante é considerado normal para a maioria dos pais na tentativa de disciplinar seus filhos.

A pesquisa, realizada em 16 países, não incluiu o Brasil, mas a ONG Promundo, com sede no Rio de Janeiro, acabou de lançar um estudo que contempla precisamente esse tema: uma consulta a crianças de uma comunidade no Rio de Janeiro mostrou que o castigo faz parte da nossa cultura também.

"O problema é que esse tipo de castigo não serve para impor limites. O resultado é outro. O castigo físico - desde o tapa e o beliscão até o uso de objetos, em escala de agressão ascendente -, ou o castigo psicológico usado para desmoralizar a criança- que vai de gritos e comentários depreciativos, a trancar uma criança no banheiro ou fora de casa -, nada disso funciona para corrigir comportamento", ensina Isadora Garcia (foto), pesquisadora e uma das três autoras do estudo juntamente com Marianna Olinger e Simone Gomes.

"Na verdade o castigo traumatiza, pode levar a criança a se retrair ou, ao contrário, entre as mais extrovertidas, a usar de violência contra os pares. Mas o erro maior, é criar um vínculo entre violência e afeto, esse é um legado nocivo que fica para a vida toda."

Diferente do estudo do Unicef, a "Consulta com crianças sobre castigo físico e humilhante: relato de uma experiência" entrevistou as próprias crianças da comunidade de Cancela Preta, bairro popular da Zona Oeste do Rio de Janeiro. O estudo teve como objetivo desconstruir crenças sobre o desenvolvimento infantil relacionadas ao uso de uma violência considerada menor.

Há 18 anos que crianças e adolescentes tem na lei internacional e no Estatuto da Criança e do Adolescente direitos garantidos à segurança, educação e lazer, entre outros. Mas o dia-a-dia ainda está longe de proteger esse novo "sujeito de direitos" legais. Um grande passo para reconhecer isso foi com o Estudo Mundial da Violência contra as Crianças, apresentado na Organização das Nações Unidas em 2006 e conduzido pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP).

Tornar a violência visível

“Há um muro de silêncio sobre a violência doméstica contra as crianças, o que vimos no nosso relatório, é que ela é escondida, não é relatada, e é sub-notificada” disse Pinheiro ao Comunidade Segura na ocasião do lançamento, “O relatório contribui para quebrar essa barreira e tornar visível essa violência.”

Com o relatório sobre a violência contra a criança, a ONU deu à sociedade civil e governos ao redor do mundo a tarefa de romper essa barreira de silêncio e tornar a “violência visível”. Uma parte importante deste processo, segundo a ONU, é consultar as crianças diretamente.

O estudo da comunidade de Cancela Preta ouviu 65 crianças de cinco a 12 anos, divididas por faixa etária - 36 tinham entre cinco e oito anos (sendo 23 meninos e 13 meninas) e 29 tinham entre nove e 12 anos (sendo 16 meninos e 13 meninas).

A renda familiar das crianças entrevistadas é de dois a cinco salários mínimos. Os pesquisadores contataram membros da comunidade por meio da associação de moradores e do Programa Saúde da Família.

“A recepção dos pais foi muito importante, e uma conquista do estudo. Na verdade em geral é muito mais fácil entrar em contato com comunidades populares do que com a classe média", conta Isadora. "Sempre que abordamos os pais nesse tópico, já estamos preparados para receber certa resistência. Ou os pais consideram que esse tipo de violência é normal e sem maiores conseqüências, ou têm dificuldade de examinar a si mesmos, sobre como de fato disciplinam suas crianças”, conta.

muroDeSilencio_unicef_dentro.jpgFormas não verbais de expressão

A Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU diz que elas tem o “direito de exprimir suas opiniões livremente sobre todas as matérias pertinentes a elas, levando-se devidamente em conta suas opiniões em função da idade e maturidade” lembra o estudo.

“Crianças não são adultos incompletos, elas tomam posições e agem no seu mundo social. Toda criança ao nascer, provoca mudanças na sua família, por exemplo. O que temos que levar em consideração é o modo como elas se exprimem. Elas usam elementos de linguagem não verbal para se comunicarem", explica Isadora..

Para atender às diferentes formas de expressão, o estudo usou uma metodologia desenvolvida por Cláudia Leão, professora de artes do Instituto Tear, no Rio de Janeiro, que incluiu brincadeiras, desenhos, e bonecos que conversavam com as crianças. O boneco dizia que vinha de outro mundo e que queria saber como funcionavam as famílias dos humanos. As crianças eram reunidas em grupos e sempre na presença de um adulto que conheciam.

Crianças não gostam, mas aceitam castigos físicos

“Através das falas das crianças, pudemos perceber que elas se ofendem com os castigos físicos e humilhantes. A criança se sente impotente para revidar, fica desmoralizada em relação ao adulto, se ressente. Mas uma coisa surpreende, a criança aceita o castigo, e mais, ela se vê aplicando a violência em outras crianças, irmãos, e no futuro até nos filhos imaginários,” explica Isadora.

O fato de as crianças aceitarem e até reproduzirem um castigo físico não significa que ela não possa interpretar a experiência para seus próprios fins. “Eu acho pior o castigo. A coça você leva, mas depois você volta pra rua. O castigo não. Você fica lá sem fazer nada. Eu já fiquei de castigo um mês sem ir botar a cara no portão”, contou uma das meninas entrevistadas durante a pesquisa.

Isadora também aponta que o castigo físico e humilhante tem um impacto diferenciado sobre a memória. Quando usado por longo período, a lembrança do castigo perdura muito além da lembrança do comportamento que motivou o castigo. “O que fica na mente da criança, o que elas aprendem é que violência e afeto estão ligados”, disse a pesquisadora.

O estudo ressalta que essas praticas se transmitem entre gerações e que, muitas vezes, a idéia do uso da violência para disciplinar o filho ou filha é também uma herança dos pais. Ainda de acordo com o estudo, na maioria dos casos, quem usa o castigo físico ou humilhante é a mãe da criança, por estar mais presente na vida dos pequenos.

"Meus pais não me ouvem"

Quando questionadas sobre como participam dentro da família, as crianças manifestaram uma queixa comum: reclamaram que os pais não as ouvem. O que as crianças relatam como diálogo na família, na verdade se trata de uma conversa desigual, em que a fala dos pais se resume a pedidos, ordens e instruções, pautado por uma postura autoritária, mas não um diálogo satisfatório do ponto de vista da criança;

Um menino de cinco anos citado no estudo, explica: "a minha mãe briga sentada. Aí todo dia eu entro, mas ela não escuta. E aí minha mãe vai lá pra cozinha quando eu falo com ela. Ela me ouve mais ou menos.”

A queixa fica mais contundente quando as crianças estão tristes: a maioria não procura a mãe para ouvi-las, e "quando perguntadas, todas as crianças consultadas relataram sentir-se muito tristes e com raiva por não serem ouvidas por seus pais,” diz o estudo.

Meninas gostariam de serem meninos...

Apesar de não ter sido o objetivo do estudo, as falas das crianças revelaram preocupações espontâneas com restrições impostas a meninos e meninas de acordo com seu gênero. Meninos relataram que, apesar de saberem que meninos podem chorar, não devem “porque sou macho”.

Às meninas incomodam limites sobre sua liberdade de ir e vir, de como se vestir. “Ao contrário dos meninos que podem raspar a cabeça e brincar na rua, eu não posso usar qualquer saia, e meu cabelo como eu quiser” foi uma reclamação comum. Muitas disseram que gostariam de ser homens, mas nenhum menino disse que gostaria de ser mulher.

Unanimidade entre as crianças é que elas querem passar mais tempo com os pais, que os piores castigos sãos os que as impedem de brincar. “O nosso trabalho com a escuta de crianças não termina aqui, é claro, o próximo passo é difundir entre os pais técnicas de disciplina que não envolvem violência contra os indefesos, o que chamamos de disciplina positiva”, afimra Isadora. A desigualdade de poder entre crianças e adultos eventualmente passa, o que fica depois é o tipo de relação que se construiu.


Comunidade Segura, 14/08/2009.

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